6.09.2010

Morangos Mofados

Quantas vezes você vai ao mercado e compra algo mofado? Isso mesmo, um “bolorzinho”, pequeno que seja, interfere no seu poder de escolha? Pois não interfere no texto de Caio Fernando Abreu, do qual, afinal, é a base.
O livro “Morangos Mofados”, de C. F. A, é dividido em três partes (o mofo, morangos e morangos mofados), e constitui-se de histórias que vão da ditadura militar, à repressão à liberdade e ao direito de opinião, a sentimentos rejeitados pela sociedade e reprimidos nos indivíduos e, também, a esperança oferecida aos personagens, que encontram um sentido para viver. A luta, a reclusa e o medo, integrantes da primeira parte do livro, dão espaço à aceitação e realização de desejos na segunda, que encontra a sua felicidade numa terceira parte.
Como se fosse um romance, os contos de C.F.A. enlaçam dor, esperança, medo, insatisfação, prazer e amor. Por vezes, tudo parece fazer parte de uma história só, mas não. Cada conto, uma história; cada história, o retrato de uma gente que sente, que imagina e que sofre. A sensibilidade para fazer aflorar uma imensidão de “coisas” numa pessoa só, faz de Caio Fernando Abreu referência quando o assunto é texto bem escrito, inteligência e perspicácia.
Mas é mais que isso. E, talvez por isso, eu peque (assim como devo ter pecado em outros textos) por não apresentar a grandeza do material que te espera caso você aceite essa dica e se debruce sobre a obra. “Morangos Mofados” é maior do que isso; é melhor do que se pode descrever em algumas poucas linhas, e é, antes de mais nada, um convite ao deleite.
Caso você não tenha medo do gosto de mofo que pode içar em sua boca, se arrisque; engula, deguste e aprecie umas das melhores obras brasileiras. Até porque, o mofo não está apenas na boca; é mais presente do que gostaríamos, ou não.


Boa leitura e até a próxima semana!

Uma vida inventada


Estereótipos, sejam eles quais forem, em pouco nos ajudam nas tarefas do dia a dia. Andam lado a lado com o preconceito: ideia sobre algo ou alguém estabelecida, muitas vezes, sem sequer conhecer o que ou quem é este “desconhecido”.
Na maioria das vezes, o estereótipo e o preconceito fazem com que não aproveitemos algo que seria bom. E, travados, ficamos na mesma. Às vezes é preciso ousar, pois na ousadia despropositada está a nova experiência. Mas, quantas vezes nos permitimos experimentar o novo? Quantas vezes nos deixamos levar pela incerteza? Quantas vezes agimos mediante um conteúdo incerto?
Trabalhamos com o certo, o objetivo, o categórico. E nesta lista não cabem sentimentos como incerteza, a menos que este exista apenas na nossa imaginação. Ali, onde ninguém pode alcançar, nos permitimos elaborar outros enredos que não o nosso (verídico); com a imaginação criamos cenas, cúmplices, amantes e até uma pessoa que concorde com tudo o que fazemos. A isso podíamos chamar de “inventação”. Simples assim!
Você poderá me dizer: nem tão simples! Afinal, criar ou reinventar situações requer cuidado e a tal audácia que falávamos anteriormente. Audácia que Maitê Proença teve ao construir o livro “Uma vida inventada”, uma mistura entre biografia e literatura.
São duzentas páginas, cerca de quatro horas e meias de dedicação e, então, você estará à par da história de uma atriz e autora que, pelo menos a mim, parecia tão como as outras. Maitê agora surge diferente. Vem mais crua, mais humana, mais eu e você. E vem inventando passados e planos futuros. Maitê se aproveita dos personagens que interpreta para viver várias vidas; para em cada uma delas expressar o sentimento que queira, sem remorso, sem vergonha e sem medo. Maitê é artista e encontrou na arte a sua forma de viver pela verdade, sem esconder qualquer que seja o sentimento que a abrasa. Mas e nós? Como podemos reinventar nossa vida a cada tropeço, a cada dúvida, cansaço e desalento? Como podemos fazer o que Maitê sugere?
Talvez, encarar estereótipos e preconceitos seja uma alternativa. Assim ficamos mais soltos. Alguém quer tentar?

Boa leitura e até a próxima semana!