10.26.2010

O gerente

Passeava pela livraria e buscava entre os autores já conhecidos algum título que, no momento, despertasse a minha atenção. Na segunda olhadela desisti e optei por este livro que vos segue: “O gerente”, de Carlos Drumond de Andrade. Com a primeira versão publicada ainda em 1945, com ilustrações de J. Moraes, “O gerente” de agora vem revisado, de acordo com o Novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa, e apresenta ilustrações do argentino Alfredo Benavidez Bedoya.
Trata-se de um conto. O conto que traz um Rio de Janeiro modesto, tranquilo e seguro. É nesta cidade que conhecemos Samuel, o gerente em questão, que a exemplo de muitos outros brasileiros conquista seu espaço profissional com trabalho sério e dedicado.
Um homem que tinha tudo para ser um bom marido, mas que se descobre incapaz de tal ato. Reclusa-se a viver sozinho, numa rotina de galanteios, coquetéis, jantares, bailes e comemorações. Samuel revela-se uma figura amorosa, respeitável e coerente. No entanto, como coerência não garante estabilidade, casos estranhos passam a acontecer e, de repente, este mesmo homem passa a ser julgado pelo crime das dentadas. Um tanto antropofágico, o conto revela um caso de pequeno mistério. Nem raiva, nem rancor, nem desprezo. Apenas mistério, incredulidade e alguma desconfiança. Seria, Samuel, capaz de tal audácia? Para que tamanha ousadia?
Nem o conto, nem Samuel, nem Carlos Drumond de Andrade respondem tais perguntas. E talvez seja esta uma das intenções da obra: deixar a bola picando. É o pensamento que ora é isso, ora é aquilo; os devaneios; a ideia que não chega a ter um fim e se perde no meio de outra que surge; é o conto; a literatura; o hábito de não por um ponto final em tudo. É a vida sob outra perspectiva: sem exatidões, respostas ou resultado final. É a vida inconstante, surpreendente e inquietante. É o Samuel, é você é cada um ao mesmo tempo fazendo tudo diferente.
E sobre o causo, ficou assim. Samuel partir para São Paulo. Fazia muito calor no Rio e o gim já não bastava mais. Mas as dentadas...

Boa leitura!

Esquisita como Eu

Sabe aquele dia em que você acorda e tudo parece meio devagar? O telefone não toca, o e-mail não chega, nem sol, nem chuva, nem nada. Nada além do que já estamos acostumados a receber e esperar. Dias assim têm mais características em comum: demoram para passar, geralmente caem na segunda-feira e, a melhor de todas, parecem não acontecer com os outros.
Essa última, suponho, acontece porque insistimos em pensar que tudo (quando é ruim) só acontece conosco. Dessa forma supomos que os outros (felizes e sorridentes) nunca tenham tido tamanha experiência.
É assim quando olhamos para nós... e quando olhamos para os outros: sempre traçamos comparações. E, comparando esta obra (“Esquisita como Eu”) com as demais da autora (Martha Medeiros) impossível não sentir a diferença.
Em sua estreia na literatura infantil, a cronista gaúcha lança palavras que, de letra em letra, se constituem numa breve explanação sobre um pouco disso que falávamos: ser igual, ser diferente. Marta apresenta as esquisitices de sua personagem e ao falar dela, fala das esquisitices de todos os outros também, ora por serem iguais, ora por serem diferentes. Ou um, ou outro. Talvez nenhum ou todos.
Ilustrado por Laura Castilhos, o livro apresenta o colorido, o inexato e o inesperado de cada sujeito frente a esquisitice dos outros, sejam eles crianças, adultos ou adultos que desejam ser para sempre pequenos (ou pequenos que quando crescerem querem pensar menos, ter problemas pequenos, apenas com tempo para seu gato e cachorro). A parte isso, as comparações servem apenas para evidenciar algo que já estamos fartos de saber: que somos diferentes e que pela diferença vivemos. Do contrário, seria uma baita monotonia. Certa está a personagem de Martha Medeiros em ver suas próprias esquisitices frente a “igualdade” dos outros. O exercício mostra que assim parecemos mais autênticos, como as crianças.

Boa leitura!

A doce revolucionária!

Quando se trabalha com arte, música, literatura e suas diversas possibilidades de produção de conteúdo, a citação “nasceu mais um filho” é comumente utilizada. Isso porque a cada resultado de trabalho, a cada exposição, a cada disco gravado, livro publicado, música composta, entre outros, é empregada muita energia, mas muita mesmo. Noites em claro, viagens adiadas, lazer protelado, tudo por um “gran finale”.
É com a expressão de quem tem o dever cumprido que Torres Pereira chega à redação onde trabalho e me entrega o seu mais recente “filho”. Um filho querido.
Um filho que, justamente, se espelha em uma criança para apresentar a sua ideia; que vê na pequena Naiê um bom exemplo de boas ações e atitudes; e que, principalmente, crê num futuro melhor.
O livro apresentado pelo escritor português se chama “A doce revolucionária” e se passa no interior de uma escola. Neste ambiente conhecemos a adolescente (já apresentada como Naiê) que dá luz à história. E, como não poderia ser diferente, a protagonista o é por desempenhar um papel de destaque nos episódios que constroem a narrativa. Naiê o consegue porque resolve não ficar de braços cruzados frente a questões simples, que fazem da vida mais tranquila e que competem a qualquer cidadão.
Um exemplo? Cuidar para que não se jogue lixo pelo chão. Pode parecer repetitivo, taxativo e, até, “conversa para boi dormir”. Mas Naiê não pensa assim e resolve lutar por ambientes onde cada pessoa jogue o seu lixo no devido lugar.
Esta é apenas uma dentre as tantas situações apresentadas na obra de Torres. Questões que vão além do simples ato de saber “aonde jogar o lixo”, mas que falam sobre educação, respeito, noção de cidadania e humanismo. Coisas que fazem falta a qualquer um durante toda a vida, não importa se adulto, criança ou adolescente. Coisas que, muitas vezes, só as crianças são capazes de perceber (e fazer) e das quais não viveríamos sem.

Boa leitura e até a próxima semana!

O menino no espelho

Já escrevi neste espaço o quão agradável é a surpresa de pegar um livro (com ou sem referências) e com ele passar algumas boas horas. Não há palavra que resuma a sensação de se perceber sorrindo sozinho com alguma façanha de determinado personagem, chorando com a realidade de outros ou mesmo voltando ao passado para relembrar um momento por nós vivido e que é mencionado na obra. A proeza que conseguem os escritores quando chegam a este ponto deve, portanto, ser reverenciada. Então, nesta semana, o “salve” vai para Fernando Sabino e “O menino no espelho”.
O livro que é, em boa parte, a história do próprio autor, aliada à narrativa das peripécias vividas por Fernando (o menino protagonista), conduzem a boas risadas. Pelo menos a mim o efeito foi esse. Não resisti quando Fernando ao chegar em casa se deparou com uma galinha no quintal, deu a ela o nome de Fernanda, ensinou-a a falar e, depois, passou a pensar num plano infalível para evitar que ela se transformasse no cardápio de sábado (frango ao molho pardo). Fernando precisou contar com a sorte e a astúcia que só as crianças têm e, claro, com o “jogo de cintura” da galinha, digo, da Fernanda. Também não resisti quando Fernando (também chamado de agente Odnanref), a agente Anairam, o agente Pastoff e o agente Hindemburgo (totalizando: um casal de brasileiros, um russo e um alemão), formavam o Departamento Especial de Investigações e Espionagem Olho de Gato e através dela descobriam tramas horripilantes com muita coragem e perspicácia.
Seja na espionagem, na educação da galinha, desculpem, Fernanda, quanto no dia que Fernando voou, Fernando Sabino deixa rastros de uma boa memória e uma ótima imaginação. Impossível, também, não protelar o término do livro. Eu, confesso, adiei o que pude. Até o meu prazo de “trabalho” estourar. Mas, chega um momento que não adianta, você cresce, já não cultiva sociedades secretas, não brinca mais na chuva, nem vê o reflexo saindo do espelho para tomar aquele remédio com gosto horrível. Chega uma hora em que é preciso dizer apenas que o livro é muito bom e que nada supera a infância. Como disse, muito bem, o autor: “quando eu era menino, os mais velhos perguntavam: - O que você vai ser quando crescer? Hoje não me perguntam mais. Se perguntasse, eu diria que quero ser menino”. Essa é a ideia de todo o livro: simples como são as crianças! E por isso mesmo, encantadora!


Boa leitura e até a próxima semana!

9.09.2010

Saramago, biografia!


Antes de qualquer palavra é preciso que eu peça desculpas, pois de maneira alguma conseguirei, nesta coluna, dar conta do papel a que me propus já faz algum tempo: resenhar sobre um livro. Impossível porque escolho, de maneira egoísta, uma obra da qual retiro imensa satisfação e que trata de um dos melhores autores de todos os tempos.
A biografia de José Saramago, escrita por João Marques Lopes, me chamou a atenção, em primeiro, pela capa. Nela, um homem velho segura seus óculos e escora, pensativo, o queixo em uma das mãos. Um homem que nasceu numa época de guerra, miséria e analfabetismo. O homem da capa carrega um olhar triste e, talvez, cansado. Um olhar de Saramago.
Criador de um estilo único de linguagem (o saramaguiano), autor de livros célebres, prêmio Nobel em 1998, comunista e inconformado desde sempre, José Saramago desafiou seu destino e, como diz o dito popular, “mostrou a que veio”. E como mostrou.
Sua primeira obra, de 1947, chama-se Terra do pecado e rendeu pouquíssimas edições. Depois dela vieram Poemas possíveis, A bagagem do viajante, O ano de 1993, Levantado do chão (obra que marca o início do estilo saramaguiano de contar história – com parágrafos longuíssimos, pontuação escassa, detalhismo e criatividade em abundância), Que farei com este livro?, Viagem a Portugal, Memorial do convento, O ano da morte de Ricardo Reis (o “Pessoa” que Saramago demorou a descobrir), A jangada de pedra (que surgiu após uma conversa despropositada com a jornalista brasileira Cremilda Medina), A segunda vida de Francisco de Assis (sobre o seu irmão que morreu aos dois anos de idade com broncopneumonia), História do Cerco de Lisboa, O evangelho segundo Jesus Cristo (polêmica obra que fez o governo português e igreja católica refutarem a posição do autor. Após este período Saramago se “auto exila” na ilha de Lanzarote), Ensaio sobre a cegueira (livro que o próprio autor pensou não ser capaz de sobreviver), Todos os nomes, A caverna, O homem duplicado, Ensaio sobre a lucidez, As intermitências da morte, A viagem do elefante, Caim (último romance do autor), Cadernos de Lanzarote (com cinco publicações), O Caderno (publicação dos textos disponíveis no blog do autor), para citar apenas alguns. A lista de livros só não é maior que o legado por ele deixado.
Por fim (e eu havia avisado que seria pouco o espaço), um dos maiores autores de todos os tempos, é oriundo de uma família analfabeta, em que o único curso que fez foi o de cerrilheiro mecânico e que nem Saramago deveria se chamar. O erro, do funcionário que o registrara, foi um dos tantos que o autor aprendeu a enfrentar. Assim como aprendeu sobre a desigualdade social, o preconceito, a violência e a pobreza. Assim como aprendeu sobre os cegos que mesmo vendo, não veem. Destes, Saramago já nos avisou, da maneira mais original possível. De uma forma que só um grande homem, mesmo com olhar pensativo e cansado, consegue.

Boa leitura e até a próxima semana!

De repente, nas profundezas do bosque



Ler histórias infantis sempre nos faz refletir um pouco mais sobre a maneira como conduzimos nossas atividades, seja no trabalho ou em casa, com a família. Nos faz parar para pensar sobre o que elencamos como vital em nosso cotidiano e, por estas características, se tornam histórias encantadoras.
O livro (infantil) desta semana, em primeiro lugar, me despertou três perguntinhas, são elas: quem nunca quis fugir? Sair pela porta da frente e nunca mais voltar. Deixar os problemas financeiros de lado; a conversa inacabada de outro e seguir, sem rumo, pensando apenas no próximo caminho? Quantas vezes nos deixamos abater por opiniões de terceiros e passamos a ser influenciados por pessoas que se julgam melhores e superiores? E, por fim, quantas vezes desejamos voltar a ser crianças para deixar de lado os compromissos, obrigações, negociatas e decisões?
O mundo das crianças, referenciado por muitos adultos como algo quase utópico, revela um universo onde só coisas boas acontecem. No entanto, como contentar-se não é um verbo muito em uso pelo ser humano, quando crianças desejamos logo sermos adultos para, então, fazermos nossas próprias escolhas, decidirmos a roupa e o brinquedo que queremos comprar, escolhermos o canal de TV, sem ninguém reclamar, etcétera. No entanto, apesar desta divergência de vontades e anseios, algumas pessoas (adultas e crianças) parecem sempre conter um segredo que lhes fazem ser mais feliz. Segredo como o de Maia e Mati, duas crianças de um pequeno vilarejo criado por Amós Oz.
O pequeno vilarejo onde vivem passou, há algum tempo, por uma espécie de maldição. Maia e Mati só ouviram falar deste período (onde existiam animais de todas as espécies, desde aves, répteis, peixes) e, aos poucos, vão entendendo que segredo é esse. Mas, como cita o autor, “acontecem aqueles momentos em que todos nós sem exceção, nos assustamos e ficamos apavorados, às vezes ficamos cansados, ou com fome; momentos em que nos empenhamos muito para que fique tudo bem, não muito quente nem frio” e, nesses momentos, nos igualamos a qualquer outra espécie, nos igualamos a qualquer coisa, indiferente do que fazemos, da nossa idade ou da nossa condição social. Pois “todos nós, sem exceção, tentamos a maior parte do tempo nos preservar e nos guardar de tudo o que corta, morde e fura”. Ou seja, todos nós temos apenas um interesse: se preservar.
Porém, esta é só uma história infantil e você, provavelmente, esteja abarrotado de trabalho, sem tempo para este tipo de conversa.

Boa leitura e até a próxima semana!

8.12.2010

Chapatis e dosas


Na semana passada trazíamos à tona o livro “O que é etnocentrismo”, de Everardo Rocha, e com ele a definição do que esta terminologia significa nas atividades que desenvolvemos cotidianamente. Sabendo, então, que ser etnocêntrico é assumir uma visão do mundo “onde o nosso próprio grupo é tomado como centro de tudo e todos os outros são pensados e sentidos através dos nossos valores, nossos modelos e nossas definições do que é existência”, podemos imaginar (ou entender) o quão é difícil para alguns aceitarem a existência de culturas e modos de vida diferentes; e também, como é difícil viver na diferença.
É com olhos na harmonia entre estes dois extremos que, nesta edição do Folha do Alto Irani, apresentamos o livro “Chapatis e dosas - meus dias na Índia”, de Stefânia Forner (2006). A obra, da autora chapecoense, não trata sobre conceituações do que é etnocentrismo, mas aborda a dificuldade em conviver com uma cultura tão diferente (pelo menos aos nossos olhos), como a indiana.
O livro é, em suma, um diário. Um diário da farmacêutica que foi à Índia com a intenção de estudar e desenvolver projetos na área de HIV/Aids com crianças e adolescentes sem teto ou que vivem na rua. No entanto, suas atividades foram além destas intenções e como resultado temos a obra em questão.
Embora a Índia possua uma próspera indústria farmacêutica e seja a maior produtora dos medicamentos genéricos para o tratamento de HIV/Aids vendidos no mundo, a terapia antirretroviral não é fornecida gratuitamente a todos os cidadãos diagnosticados com o vírus. Nos grupos estudados pela autora/pesquisadora (36 meninos de 12 a 19 anos e 30 meninas de nove a 18 anos), a maioria tem pouco ou nenhum conhecimento sobre uma doença quer pode ser fatal, se não for tratada adequadamente. E, num país com cerca de dois milhões de infectados esta não-informação é vital para a proliferação do vírus.
Tendo como ponto de partida estes números, podemos conhecer uma “outra” Índia que não aquela das iguarias e especiarias. Conhecemos uma realidade de escravidão, pobreza, prostituição, tráfico de drogas e de órgãos. Um país em que poderemos, como cita a própria autora, odiar e amar no mesmo instante, mas que devemos, sobretudo, respeitar. Um respeito que tenha, em primeiro lugar, noção de humanidade e qualidade de vida.


Boa leitura e até a próxima semana!

O que é étnocentrismo?


“É uma visão do mundo onde o nosso próprio grupo é tomado como centro de tudo e todos os outros são pensados e sentidos através dos nossos valores, nossos modelos, nossas definições do que é existência”.
A resposta para a pergunta que intitula o livro “O que é etnocentrismo” é de Everardo Rocha. Formado em Comunicação Social, com mestrado e doutorado em Antropologia Social pelo Museu Nacional da UFRJ, Everardo apresenta a definição para o termo “etnocentrismo”. Que, de acordo com o autor, pode ser visto como a dificuldade de pensarmos a diferença, reagirmos com estranheza, medo e hostilidade ao que é diferente.
Sob a perspectiva etnocêntrica existem grupos: o “meu” e o “outro”. O meu é o conhecido, que compreendo, interajo e me relaciono. O “outro” é, por sua vez, é o diferente e, por isso, assusta e gera incompreensão. Um exemplo elucidado pelo autor e que deixa ainda mais clara estas definições é a estória dos de um pastor que, após longo tempo de preparação, foi pregar junto a povos selvagens. Na chegada, este pastor entregou inúmeros presentes que havia comprado. Mesmo após distribuí-lo um índio pediu incansavelmente pelo seu relógio. O pastor, meio a contragosto, deu então o relógio. Dias depois, o índio chamou-o exultante para mostrar o que havia feito: no galho mais alto de uma grande árvore, estava o relógio entre os ornamentos preparados pelo índio. O padre tentou disfarçar o sorriso amarelo ao ver o seu relógio, agora sem função alguma, pendurado naquela árvore. Tempos depois, pouco antes de voltar ao seu povo, o padre precisava entregar aos seus superiores um relatório. E, pensando em como iria construí-lo, contemplou as paredes do seu escritório. Nelas, arcos, flechas, cocares e uma flauta. O pastor riu e lembrou do episódio anterior: “engraçado o que o índio havia feito com meu relógio”, finaliza a estória o autor.
Este exemplo mostra como age o etnocentrismo: o outro é que é diferente, e possivelmente errado, pois não combina com o meu grupo. Ou seja, o etnocentrismo passa exatamente por um julgamento do valor da cultura do “outro” nos termos da cultura do grupo “eu”.
Por isso a leitura vale a pena. Para repensarmos na construção social/cultural que estamos sempre dispostos a julgar. Lembrando que atitudes etnocêntricas podem, quando extremistas, levarem ao preconceito e este, já sabemos, é melhor evitar.

Boa leitura e até a próxima semana!

A norma oculta

Já ouviu falar de “variedades linguísticas tipicamente estigmatizadas”? Se a tua resposta foi não, tenho quase certeza que posso te convencer do contrário. Achou petulante? Então, calma. Vou me explicar.
Este é o termo utilizado para caracterizar as falas consideradas inferiores à norma gramatical correta, também conhecida como “variante de prestígio da língua”.
Geralmente são usadas por pessoas socialmente discriminadas (por isso a palavra “estigmatizadas”). Ou seja, pessoas que usam termos como “prástico”, “crube” e “bicicreta”. Pessoas que adquiriram estas ferramentas linguísticas durante toda a sua vida. E não é porque não sabem falar, mas sim porque não tiveram acesso aos conhecimentos da variante de prestígio da língua, que exige os usos de ‘plástico’, ‘clube’ e ‘bicicleta’. Não é por incompetência, mas por impedimento pelas condições sociais, econômicas, geográficas etc.
É sobre o termo acima apresentado e, principalmente, sobre o preconceito às pessoas que apresentam estas características que Marcos Bagno (doutor em língua portuguesa) apresenta livro “A norma oculta”.
De acordo com o próprio autor, o livro procura, por meio de um exame sobre as relações entre língua e poder, reagir às profecias derrotistas que discriminam e negam as pessoas que falam desta forma, mostrando o porquê estas profecias não devem ser levadas a sério. Como cita o autor, “quem tiver um mínimo entendimento da história do Brasil e de sua realidade sociolinguística não afirmará que falar de acordo com sua constituição história/social/educacional é um erro”.
A propósito, a partir da leitura de Bagno a concepção do que é certo e o que é errado faz parte de uma linha muito tênue na significação da própria palavra erro. Afinal, acreditar que falamos errado é crer que somos todos errados. É desconsiderar as características de um povo, é desmerecer sua história. É fazer de conta que o preconceito linguístico não acontece no ônibus que nos leva ao trabalho; que não ocorre nas piadas de deboche sobre a “region”. Então, para fechar, nada melhor que o esclarecimento de que “o preconceito linguístico não existe. O que existe, de fato, é um profundo e entranhado preconceito social”. E isso, você já ouviu?

Boa leitura e até a próxima semana!

A maior flor do mundo


Existem sentimentos que nos acompanham sem pedir permissão. E a ansiedade é um deles. É através da presença dela que muitas pessoas roem unhas, fumam, comem exageradamente e falam a quem passar na frente. Mas nem sempre a ansiedade é tão má assim. Às vezes, apenas nos faz desejar mais e criar uma grande expectativa sobre algum acontecimento. Confesso, sinto mais ansiedade do que gostaria. Não rôo unha, mas crio uma expectativa descomunal sobre as mais diferentes situações.
Por um bom tempo desejei ler um livro que parecia ser diferente, de um autor que já conheço e do qual admiro a virtude de bem escrever. O fato é que por um motivo e outro o livro foi ficando, surgiam outros e a ansiedade aguentou por longos dois anos. Se rebelou há alguns dias e, como resultado, tenho em mãos “A maior flor do mundo”, de José Saramago, o único livro infantil escrito pelo autor português que há um mês deixou-nos.
“A maior flor do mundo” é, como todo Saramago, esplêndido e o consegue por ser simples. Começa com um relato do próprio autor sobre a dificuldade em escrever para crianças que, “sendo pequenas, sabem poucas palavras, e não gostam de complicá-las”. Após a ressalva de suas “limitações”, somos, então, apresentados ao menino que encontrou e fez nascer a maior flor do mundo.
Com a simplicidade natural de toda a criança, o menino se dedicou a cuidá-la. Para isso, empregou algum esforço sobre o qual foi reconhecido posteriormente. O menino, que no momento só queria cuidar de uma flor quase morta, foi tomado como aquele que saiu da aldeia para fazer uma coisa que era muito maior do que o seu tamanho e de todos os outros. “E essa é a moral da história”, encerra Saramago. Ele que chegou a imaginar que, se tivesse as qualidades necessárias para colocar a ideia no papel, ela seria verdadeiramente extraordinária, podendo chegar a ser a “a mais linda de todas as que se escreveram desde o tempo dos contos de fadas e princesas encantadas...”.
Saramago alega não ter conseguido tal fato, mas deixou o desafio a outros, avisando como é difícil escrever a melhor história de todos os tempos, principalmente se for para criança. A quem quiser tentar contar esta história preciosa inventada pelo português, nada de muita ansiedade e lembre-se: use palavras simples. A narrativa também pode ser acompanhada em www.youtube.com/watch?v=HcDaT03y2no.

Boa leitura e até a próxima semana!

Os caminhos de Nelson Mandela


Cite um exemplo de um bom líder. Alguém com “pulso firme” na tomada de decisões; que não desaponta seus seguidores e que, obrigatoriamente, não tenha como objetivo central “se dar bem”. Alguém que tenha desejos em comum com um grande grupo; que respeite e valorize a vida e, principalmente, lute por ela.Eu acabo de conhecer, entrar na casa e fazer uma retrospectiva sobre um destes “caras”. Mas não é qualquer líder não, é Nelson Mandela. Representante político de um dos países mais pobres do mundo, que viveu massacrado pela imposição do apartheid, Mandela tem um longo caminho de liderança. Começou com a Liga Jovem do CNA, coordenou a campanha do Desafio, em 1952, comandou a decisão de abraçar a luta armada e desafiou o governo a enforcá-lo no Julgamento de Rivonia, em 1963-64. “No julgamento que o enviou para a prisão perpétua, declarou-se inocente – mas acrescentou que era culpado por lutar pelos direitos humanos e pela liberdade, culpado por combater leis injustas, culpado por lutar pelo seu próprio povo oprimido. Sabia que se arriscava a receber a pena de morte e não recuou”.
Durante a minha vida, dediquei-me a essa luta do povo africano. Lutei contra a dominação branca e lutei contra a dominação negra. Acalentei o ideal de uma sociedade livre e democrática na qual as pessoas vivam juntas em harmonia e com oportunidades iguais. É um ideal para o qual espero viver e realizar. Mas se for necessário, é um ideal pelo qual estou preparado para morrer”, Nelson Mandela, em1963-64.
Mandela não foi condenado à morte. Em troca, obteve quase três décadas de prisão. E é sobre esta história, é com trechos como o citado acima que é construído o livro “Os caminhos de Mandela – lições de vida, amor e coragem”, de Richard Steven.Mais do que um diário, a obra apresenta um belo retrato da postura de um dos maiores líderes mundiais; apresenta suas estratégias táticas para conciliar interesses e, ainda assim, garantir melhor condições de vida à população. 
Mandela, mesmo indo contra muitos precedentes, conquistava, seduzia e, ao final, garantia o que havia planejado. Dentre uma destas conquistas, a liberdade da África do Sul. A mesma África que vimos nos jogos da Copa do Mundo: colorida e cheia de magia.

Boa leitura e até a próxima semana!  

7.13.2010

Capitães da areia

Há dias em que o mais irredutível dos homens pode render-se a um encantamento. Esquece-se, ele, do sofrimento, da falta de oportunidades e do preconceito que sofre. Um dia me disse um amigo: “Viver na diferença é ir contra a maré todos os dias. A cada amanhecer é um novo embate”. Meu amigo, na condição de diferente por ser homossexual, teve muitas portas fechadas, no entanto precisou encontrar novas janelas, buracos, qualquer forma para que visse a claridade do sol. “Não é fácil”, reforça ele.
O preconceito de que sofre este amigo é semelhante ao de muitas outras pessoas que, por algum motivo, são colocadas como “diferentes” e, por isso, taxadas com as mais inadmissíveis barbaridades. São pessoas como os “Capitães da Areia”, grupo de meninos que “infestavam” Bahia de 1937 e que tem no cais o seu quartel general.
A obra de Jorge Amado narra a história de meninos que vivem nas ruas, sem família, casa ou qualquer conforto. Meninos que, pela necessidade, descobriram o valor da amizade e da parceria. Com o grupo, organizavam furtos e destes tiravam o sustento e algum prazer.
A narrativa se desenrola no Trapiche (hoje Solar do Unhão e o Museu de Arte Moderna); no Terreiro de Jesus (na época era lugar de destaque comercial de Salvador); onde os meninos conseguiam dinheiro e comida devido ao grande movimento de pessoas; e no Corredor da Vitória, área nobre de Salvador, também conhecida como “cidade alta”.
Mas não é apenas destes meninos que vemos falar na história contada por Jorge Amado. Ali conhecemos crianças. Destas que nunca brincaram num carrossel, que desconhecem o sentido da palavra carinho, que não fazem planos para o futuro. Ao se deitar, os Capitães da Areia não sonham; apenas sofrem com antigas lembranças das surras, esporos e covardia de que eram vítimas ao serem conduzidas ao reformatório.
Ao ler essa história é simplesmente impossível não sentir medo e angústia. É impossível não ter esperança de que, como nos filmes, no fim tudo pode dar certo. Jorge Amado é mais realista. Tanto, que ainda hoje a sua história não precisa muito para ter exemplos cotidianos.
Os “Capitães” às vezes cansavam da liberdade da rua; queriam mais. Procuravam carinho, atenção, “qualquer coisa fora daquela vida”. No entanto, poucos percebiam que, “vestidos de farrapos, sujos, semiesfomeados, agressivos, soltando palavrões e fumando pontas de cigarro, eram, em verdade, os donos da cidade, os que a conheciam totalmente, os que totalmente a amavam, os seus poetas”. Poetas que morreram de fome, de “bexiga” e, até, de saudade do que não tinham.

Boa leitura e até a próxima semana!

7.12.2010

O Velho e o Mar

Dizem, por aí, que cada sujeito é livre e que, sendo livre, decide sozinho os rumos que deseja dar à sua vida. Se acredito nisso não importa. O que vale mesmo é pensarmos sobre até que ponto somos capazes de estabelecer nossos próprios desafios, e, é claro, vencê-los. Até que ponto podemos arriscar a nossa vida para conseguirmos o tão obstinado reconhecimento, admiração e, quiçá, alguns elogios? E, principalmente, quanto isso nos faz feliz?
A busca pelo sucesso (aqui entendido como reconhecimento) é constante e incansavelmente persistente. Seu Santiago que o diga.
O velho pescador, centro da história de Ernest Hemingway, não é como possa parecer, tão obstinado pelo sucesso. Pelo menos não o sucesso reconhecido externamente, com aplausos e plumas. Santiago quer mesmo é saber que ainda é capaz de pescar os seus peixes, trabalhar sozinho e esquecer alguns fardos trazidos pela idade.
Após 84 dias sem angariar nenhum pequeno animal que seja, Santiago deposita sua esperança e vai à luta. Não, Santiago não é brasileiro. Mas, até que parece! É daqueles que não desiste, que, com sabedoria popular, sonha e é feliz. Ele sabe que não é fácil vencer uma maré de azar, mas também sabe até aonde vai a própria experiência.
É assim que Santiago, protagonista do livro “O Velho e o Mar”, escrito em 1952, constrói a sua busca. E, além de nomes de peixes e manobras de pescarias, com a obra aprendemos o que de mais importante existe para aqueles que sonham e que costumam correr atrás de seus objetivos: a esperança.
Não apenas ela, mas a esperança que carrega junto a garra e a vontade de fazer diferente. Se você é um desses, a dica foi feita. Procure e descubra o que mais Santiago pode nos ensinar. A sorte pode vir na próxima rajada de vento. É preciso estar atento às mudanças!

Boa leitura e até a próxima semana!

6.09.2010

Morangos Mofados

Quantas vezes você vai ao mercado e compra algo mofado? Isso mesmo, um “bolorzinho”, pequeno que seja, interfere no seu poder de escolha? Pois não interfere no texto de Caio Fernando Abreu, do qual, afinal, é a base.
O livro “Morangos Mofados”, de C. F. A, é dividido em três partes (o mofo, morangos e morangos mofados), e constitui-se de histórias que vão da ditadura militar, à repressão à liberdade e ao direito de opinião, a sentimentos rejeitados pela sociedade e reprimidos nos indivíduos e, também, a esperança oferecida aos personagens, que encontram um sentido para viver. A luta, a reclusa e o medo, integrantes da primeira parte do livro, dão espaço à aceitação e realização de desejos na segunda, que encontra a sua felicidade numa terceira parte.
Como se fosse um romance, os contos de C.F.A. enlaçam dor, esperança, medo, insatisfação, prazer e amor. Por vezes, tudo parece fazer parte de uma história só, mas não. Cada conto, uma história; cada história, o retrato de uma gente que sente, que imagina e que sofre. A sensibilidade para fazer aflorar uma imensidão de “coisas” numa pessoa só, faz de Caio Fernando Abreu referência quando o assunto é texto bem escrito, inteligência e perspicácia.
Mas é mais que isso. E, talvez por isso, eu peque (assim como devo ter pecado em outros textos) por não apresentar a grandeza do material que te espera caso você aceite essa dica e se debruce sobre a obra. “Morangos Mofados” é maior do que isso; é melhor do que se pode descrever em algumas poucas linhas, e é, antes de mais nada, um convite ao deleite.
Caso você não tenha medo do gosto de mofo que pode içar em sua boca, se arrisque; engula, deguste e aprecie umas das melhores obras brasileiras. Até porque, o mofo não está apenas na boca; é mais presente do que gostaríamos, ou não.


Boa leitura e até a próxima semana!

Uma vida inventada


Estereótipos, sejam eles quais forem, em pouco nos ajudam nas tarefas do dia a dia. Andam lado a lado com o preconceito: ideia sobre algo ou alguém estabelecida, muitas vezes, sem sequer conhecer o que ou quem é este “desconhecido”.
Na maioria das vezes, o estereótipo e o preconceito fazem com que não aproveitemos algo que seria bom. E, travados, ficamos na mesma. Às vezes é preciso ousar, pois na ousadia despropositada está a nova experiência. Mas, quantas vezes nos permitimos experimentar o novo? Quantas vezes nos deixamos levar pela incerteza? Quantas vezes agimos mediante um conteúdo incerto?
Trabalhamos com o certo, o objetivo, o categórico. E nesta lista não cabem sentimentos como incerteza, a menos que este exista apenas na nossa imaginação. Ali, onde ninguém pode alcançar, nos permitimos elaborar outros enredos que não o nosso (verídico); com a imaginação criamos cenas, cúmplices, amantes e até uma pessoa que concorde com tudo o que fazemos. A isso podíamos chamar de “inventação”. Simples assim!
Você poderá me dizer: nem tão simples! Afinal, criar ou reinventar situações requer cuidado e a tal audácia que falávamos anteriormente. Audácia que Maitê Proença teve ao construir o livro “Uma vida inventada”, uma mistura entre biografia e literatura.
São duzentas páginas, cerca de quatro horas e meias de dedicação e, então, você estará à par da história de uma atriz e autora que, pelo menos a mim, parecia tão como as outras. Maitê agora surge diferente. Vem mais crua, mais humana, mais eu e você. E vem inventando passados e planos futuros. Maitê se aproveita dos personagens que interpreta para viver várias vidas; para em cada uma delas expressar o sentimento que queira, sem remorso, sem vergonha e sem medo. Maitê é artista e encontrou na arte a sua forma de viver pela verdade, sem esconder qualquer que seja o sentimento que a abrasa. Mas e nós? Como podemos reinventar nossa vida a cada tropeço, a cada dúvida, cansaço e desalento? Como podemos fazer o que Maitê sugere?
Talvez, encarar estereótipos e preconceitos seja uma alternativa. Assim ficamos mais soltos. Alguém quer tentar?

Boa leitura e até a próxima semana!

5.21.2010

O andar do bêbado


Levante a mão quem nunca ouviu a frase: “foi só elogiar que agora fez coisa errada”. O dito, muito usado em tempos de colégio, quer dizer que mediante um elogio “decaímos” em nossa produção, seja ela acadêmica ou profissional.
Mais uma: alguém aí sabe o porquê, ao apresentar uma pesquisa eleitoral, surge a ressalva: “2% para mais ou para menos”?.
Essas e outras questões de probabilidade e aleatoriedade podem ser encontradas no livro “O andar do bêbado”, do doutor em física Leonard Mlodinow. A obra reúne uma síntese de processos matemáticos, físicos e astrológicos presentes não só em problemas que parecem sem solução, mas também em nosso cotidiano. E é por características assim que surge o embate: devorar a matemática ou desistir do livro?
A dúvida, confesso, existiu, e resistiu, por mais tempo que eu gostaria. Prova disso, é que escrevo a coluna atordoada, olhando o relógio e pensando no fechamento do jornal. E sabem porquê? Porque pessoas como eu, que se dedicam às letras, muitas vezes refugam os números, cálculos e raciocínios lógicos. Eis a problemática (literalmente falando): o livro é carregado se suposições, probabilidades, fórmulas de matemáticos e cientistas de importância inegável.
E, para meu próprio espanto, sobrevivi à narrativa e isso se deve a considerável competência do autor em abordar um tema “técnico” de forma que se relacione com questões do dia a dia.
À propósito, quando dizem “2% para mais ou para menos” quer dizer que, se repetissem a pesquisa uma grande quantidade de vezes, em 19 de cada uma das 20 pesquisas (95%) o resultado estaria a menos de 5% do valor correto. Então para ‘poupar’ trabalho, joga-se esta margem e que vença o melhor. Quanto ao fato de recebermos um elogio e logo depois falharmos, não quer dizer que o elogio é que ocasione a falha. Mas sim, que a presença de inúmeros outros fatores que acontecem ao nosso redor, potencializam a maneira como agimos a cada novo fato. E isso pode ser positivo ou não.
Depois dessa, acabaram-se as desculpas para evitar elogios. Que venham as pompas.

Boa leitura e bons cálculos!

As mentiras que os homens contam


Quantas vezes você mente por dia?
O que? Lhe ofendi com a pergunta?! Desculpe-me! Mudarei, então, a formulação da questão: você, algum dia, já mentiu? Não precisa ter pressa para responder. Pense bem, reflita, relembre. Como respostas, servem aquelas mentirinhas tolas que às vezes escapam sem consentimento; que escapulam libertas e quando vimos não há mais o que fazer.
Mentirinhas assim temos aos montes, certo?! Ainda não?! Ok, desisto! Vou restringir o grupo a que a pergunta se destina: claro, os homens. Agora não tem erro: em corro a resposta é... tchã tchã tchã.... Sim! Os cuecas mais afoitos poderão afirmar que isso é preconceito de gênero. Mas, me baseio aqui nas falas de um próprio representante da ala masculina: Luis Fernando Veríssimo (e não é qualquer representante não, hein).
A fala do consagrado escritor caracteriza “As mentiras que os homens contam”, livro que nos traz até aqui. A série de crônicas nada mais é que um emaranhado de bons textos com histórias divertidas e, claro, acaloradas pelo bom humor e inteligência do autor. Nos escritos, mentirinhas “bobas” que os homens aplicam, muitas vezes sem saber o porquê. Simplesmente falam e com mentiras é assim: falamos num momento e logo depois já não há como negar. Afinal quem é que vai querer ficar com cara de mentiroso?!
Em função destas pequenas “calhordices”, somos apresentados a um emaranhado de relatos que se confundem entre o que é fato, o que é boato, o que poderia ser verdade e o que, principalmente, preferimos que seja mentira. E aí Veríssimo é categórico: homens mentem para nos fazerem felizes. Discordem as mais veementes, mas, eu, após acompanhar a sequência de textos, preciso admitir: uma mentirinha a toa não mata ninguém (a verdade, essa sim, é cruel e fria).
Um exemplo: você caminha pela calçada ao lado do seu (eterno) amor. Passa uma daquelas mulheres que correspondem a todos os requisitos da constituição do que seria uma mulher bonita, charmosa, gostosa, misteriosa e, claro, super atraente. Você percebe um breve movimentar de olhos, pescoço e boca. E então tem a brilhante ideia de perguntar: “gostou amor?”, ele diz, na voz mais melosa que consegue provocar: “capaz amor! Tenho tudo o que preciso com você”. Você deixa por isso mesmo e continuam a caminhada rumo à pizzaria. Agora, confesse: o que faria se ele dissesse: “mas é obvio né amor. Uma mulher dessas é impossível não gostar”. Então, mulherada, não sei quanto a vocês, mas prefiro a primeira opção. Principalmente se estiver na TPM. Como diz o autor: “mentir é uma questão de sobrevivência”. Sábio Veríssimo.


Boa leitura!

5.13.2010

Comunicação de massa sem massa


No mês em que se comemora o Dia da Liberdade de Imprensa, nada mais peculiar que falarmos sobre a comunicação e, claro, os rumos que os meios de comunicação tem tomado, bem como que liberdade é esta que tanto se fala.
Não é de hoje que o debate sobre até onde vai a liberdade dos meios de comunicação ou a falta dela acontecem. Tão antiga quanto a própria imprensa, esta discussão faz com que voltemos à história e analisemos toda a constituição do atual cenário comunicacional. E foi isso que Sérgio Caparelli fez no livro “Comunicação de massa sem massa”, ainda em 1947.
Caparelli faz um breve relato de toda a história da mídia brasileira, desde sua fundação pelas mãos de Assis Chateubriand, a sua passagem pelas regras estabelecidas com as leis de segurança nacional, as concessões públicas, o início do rádio, a ascensão da TV, a rotina dos jornais diários e o surgimento da imprensa alternativa.
Criada a partir de modelos americanos, a imprensa nacional, logo após dar os primeiros passos, se vê à margem do processo ditatorial que instalava-se. Neste processo, leis deveriam ser estabelecidas, tudo de maneira que prevalecesse a união e o patriotismo. Para isso, campanhas publicitárias começavam a conquistar seus espaços e mostrar um Brasil diferente das brigas, lutas, torturas e miséria, em prol dos objetivos nacionais. Tal como consta na pesquisa feita pelo autor: “a censura exibida nacionalmente agia através da supressão de imagens e palavras na televisão e sua substituição por problemas irrelevantes [...]. Aliás, esta censura serviu de reforço a uma predominância dos conteúdos de evasão dos Meios de Comunicação”.
A partir daí, surgem também conceitos como objetividade e imparcialidade. No entanto, estes conceitos, de acordo com o autor, vieram mais para validar uma imprensa que levava consigo ideais nada “imparciais” do que para traçar um caminho a ser trabalhado. E é neste contexto que surgem as mídias alternativas: para dar espaço e voz aos marginalizados pelo sistema. Estas “novas” formas de fazer mídia estabelecem, então, uma proximidade entre o meio e o receptor, que deixa de ser apenas parte da grande massa e se consolida como sujeito. Sujeito este que por mais que integre a “massa” não vê na programação para ela feita a discussão sobre o seu problema; não vê a sua realidade e suas particularidades. Pois, a massificação deixa todos iguais e fazer isso num país marcado pela diversidade é, no mínimo, um risco. Por ser de 1947, até que está bem atual, não é mesmo?
Boa leitura e até a próxima semana!

5.07.2010

Divã


Piadinhas não faltam para dizer que mulheres falam demais. E falamos mesmo! É tanta coisa na cabeça, tanta imaginação, planos, projetos, intenções, tanta, tanta coisa que é difícil não expressar isso em formas de palavras. Maridos, namorados, irmãos e amigos que nos desculpem, mas não há o que fazer. Existe dentro de cada mulher uma necessidade latente de esbravejar a felicidade e lamentar qualquer vestígio de tristeza. E cada uma encontra o seu confidente especial para a tarefa. Mercedes preferiu “falar” com um psiquiatra.
Lopes era o nome dele. Mas do Lopes pouco sabemos. Escutamos mais são as histórias de Mercedes: uma mulher que sente a incoerência e a pluralidade num só corpo; que ora quer descobrir quem é, e ora imagina já saber a resposta; Mercedes quer o amor, o fervor oferecido pelo beijo que aquece; quer o que sempre teve e o que não teve também. Ela sabe que é isso que quer e, então, busca incansável chegar até o fim. A narrativa desta incessante procura acompanhamos (já meio confusos) à cabeceira do Divã.
Escrito por Martha Medeiros, Divã é o relato da vida de Mercedes para ela mesma. Mercedes tão convicta, tão confusa, tão mulher, tão homem, tão carente e tão autosuficiente. “Sou tantas que mal consigo me distinguir”, conta ela ao psiquiatra. “Sou estrategista, batalhadora, porém traída pela comoção. Num piscar de olhos fico terna, delicada. Acho que sou promíscua... São muitas mulheres numa só, e alguns homens também”.
Mercedes também sente medo. Pensa que pode ser traída, e, por receio, não procura; sente medo de não viver intensamente sua vida; medo de deixar os dias passarem sem alterar sua rotina devidamente estabelecida. Mercedes sente medo de ser sempre a mesma e, principalmente, sente medo da paralisação, porque, como ela mesma diz: “Perigoso é a gente se aprisionar no que nos ensinaram como certo e nunca mais se libertar, correndo o risco de não saber mais viver sem manual de instruções”.
Em Divã conhecemos várias mulheres. E cada uma pode ser uma só, ou como Mercedes, ser todas ao mesmo tempo. Por isso, talvez nem todas se encontrem durante os três anos de consulta de Mercedes. Mas, num capítulo ou outro, viramos a página e lá estão também os nossos medos; as nossas angústias, loucuras e tentações. De repente você também se percebe uma Mercedes e aos poucos começa a procurar um projeto para o dia seguinte e, então, aceita o convite que há tempos um amigo lhe fazia; aceita tentar se reencontrar no meio de tantos e-mails, recados, anotações e trabalho; e descobre que a cada dia se constrói um novo momento, onde a repetição que nele acontece é de responsabilidade exclusiva nossa. Mas por hoje chega, já falei demais.


Boa leitura e até a próxima semana!

Íntima Desordem


“O que é para você estar em íntima desordem?”
Foi através desta pergunta que entrei em contato com a obra que me traz aqui esta semana. Ao responder a pergunta feita pela Revista TPM, participava de um concurso cultural em que as vencedoras levariam o livro de Mara Gabrilli. A obra (Íntima Desordem) reúne textos publicados mensalmente pela TPM, pela publicitária e psicóloga. E é preciso que se diga logo: Mara é tetraplégica e é sobre o que esta mudança ocasionou em sua vida que ela escreve. (Mas não apenas sobre isso.)
A sensibilidade da escritora em dissertar sobre um tema tão delicado e que, pensem, é sobre ela mesma, faz com que nenhum dos textos seja algo triste ou de dar pena. Antes disso, Mara consegue nos fazer perceber coisas simples. Ou melhor, a importância de que certas coisas simples assumem. Como, por exemplo, o incômodo que um pernilongo pode causar; a necessidade daquela vaga para deficiente; a importância de que regras simples de respeito sejam cumpridas e não por pena, mas por “bom senso”. Como pergunta a autora mesma: “será que um dia conseguiremos viver nas cidades brasileiras com urbanidade, respeitando qualquer pessoa?”. A pergunta da Mara é sobre as vagas privativas, sobre os banheiros com espaço para cadeirantes, mas que são ocupados por diferentes pessoas e sobre a dificuldade que pessoas com deficiência encontram para desempenhar atividades simples e que, sim, são super capazes de cumprir. Claro, se houver estrutura.
Através dos textos é possível perceber que Mara sempre lidou muito bem com a questão, mesmo quando isso significou pedir que o irmão retirasse uma caca de seu nariz. Estas pequenas dificuldades são, de acordo com o livro, o que Mara mais sentiu. Ou seja, o fato de precisarmos pedir para que outros façam aquilo que nós (sempre) fizemos. Limpar o nariz pode ser muito mais complicado que, simplesmente, não poder caminhar até o supermercado.
Fica a dica, não só do livro, mas também da reflexão sobre “quem poderia tirar a caca do teu nariz caso você não mais conseguisse”; ou, quem, ao seu lado, respeitaria a vaga para deficiente?
À propósito, a resposta à pergunta foi: Estar em íntima desordem é viver em desordem total. É ser mulher; é atropelar o relógio; é o vento que balança; o perfume que encanta; o toque que arrepia; é o sono que sonha; é o sonho que acorda; é o sorriso; o bom dia; boa noite e até mais. Estar em íntima desordem é viver o desejo, o amor e a solidão; é a lágrima, o estalar de dedos e a certeza de que no outro dia tudo estará devidamente bagunçado novamente.


Boa leitura e uma ótima semana a todos!